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″Rio não serve para primeiro-ministro porque não vai conseguir fazer aquilo a que se propõe″ 


Foi ativista político. Esteve preso em Caxias depois do 25 de Abril e hoje, aos 72 anos, o antigo advogado que também já foi bastonário, deixou a toga e regressou ao comentário e à análise política.

Ouvindo os seus comentários semanais televisivos parece pessimista e desencantado. Concorda?

Se eu não fosse um otimista não tinha o programa na televisão que tenho. Continuo a acreditar que se todos e cada um de nós fizer um bocadinho o país pode melhorar. E o país está muito melhor do que o país que conheci quando era jovem, quer antes do 25 de Abril quer depois. Mas há muita coisa para melhorar, há muita coisa que é inconcebível que esteja tão mal, mas tenho uma visão muito mais positiva. Só que há uma insatisfação – ou a parte juvenil que ainda não perdi -, uma insatisfação que está dentro de mim, portanto, contribuo com a minha crítica, sem dúvida, para tentar que as coisas possam melhorar. Talvez os meus netos se interessem – os meus filhos não se interessam assim tanto – e um dia, quando estiver nos últimos momentos da vida, eles digam «avô, olhe que o que fez na televisão teve alguma importância». Se ouvir isso dos meus netos antes de morrer, já vou mais tranquilo.

O senhor foi aquilo a que hoje se chama ativista radical. Esteve preso, foi advogado, exerceu Direito durante décadas, foi bastonário da Ordem dos Advogados, esteve com os dois pés na política, hoje voltou ao comentário. Está confortável nessa pele de analista?

Estou. Nunca estive com os dois pés na política porque nunca quis ter um cargo político, com uma única exceção: quando era presidente da Distrital de Lisboa do PSD, fui candidatar-me no concelho mais difícil, para perder evidentemente, Loures. Mas nunca tive nenhuma atividade política profissional, nunca quis ter. Quanto a esse conceito de radical, é sempre muito discutível. Se lhe dissesse que nessa altura defendia a nacionalização da banca e a reforma agrária sem indemnizações, provavelmente, estou a surpreendê-lo. Se lhe dissesse que o que eu defendia na altura, a seguir ao 25 de Abril, era o pensamento do Edgar Faure, que era um radical socialista da esquerda moderada, também o surpreenderei. Isto é, sempre fui alguém que vai ao supermercado e traz o que gosta. Nunca aceitei um prato único ou dizer que, se eu defendo isto, tenho de defender aquilo também. Muitas vezes, faço o meu prato de acordo com os produtos que me apetece e coisas que digo ou defendo irritam. Diria que, nestes anos que tenho feito comentário político, provavelmente não há nenhuma força política, nenhum dirigente político que não tivesse ficado, ao menos uma vez, irritadíssimo comigo. Ainda no programa da semana passada vários amigos meus me disseram «então, mas vais votar no António Costa?». Não vou, não costumo dizer em quem vou votar – e não digo -, mas posso dizer em quem não vou. Mas, repare, irritei toda a direita ou quase toda – outras vezes irrito o PS e António Costa, outras vezes irrito o Presidente da República, noutras irrito a Ana Gomes, noutras até me irrito a mim próprio, portanto, é uma visão bastante divertida.

Irritar Ana Gomes parece ser um dos seus motivos de vida…

É porque ela dá luta. Admiro as pessoas que vão à luta. Não gosto de pessoas sonsas, manhosas – ela é brutal, eu também sou. O Pedro Nuno Santos, que a certa altura disse que eu era o advogado mais rico de Portugal – o que me deu uma enorme tristeza, porque gostava de ter sido… – levou uma pantufada enorme. Sou o advogado mais rico, mas nunca tive dinheiro para comprar um Porsche… Portanto, houve ali uma troca de mimos. Não tenho nada que ver com ele, nem ele comigo. Estou, aliás, preocupado com o futuro dele – no mau sentido -, mas já almoçámos juntos e já nos rimos imenso sobre o que ambos dissemos um ao outro com alguma brutalidade. Portanto, sou esse tipo de pessoa. Ser duro com as pessoas não quer dizer que não seja capaz de ter respeito e estima por elas.

Já lá vamos ao PS e ao PSD. De todas as atividades que teve, que tem, é no comentário que se sente mais livre, sem amarras, ou o cidadão acaba submetido ao analista?

Se fui alguma coisa na vida – e já não vou mudar – foi uma pessoa que bebeu o fruto da liberdade. Isto é, sou completamente livre, não há praticamente nada, a não ser os meus filhos e os meus netos, que me limite naquilo que eu possa ou queira fazer. Sempre pus acima de tudo o direito de ser como sou em relação a qualquer cálculo que eu saberia fazer, se o quisesse. Portanto, a liberdade conduziu-me ao comentário político, é verdade – comentário político sem liberdade não faz sentido nenhum. E independência. Acho que se alguma coisa trago ao panorama do comentário político, é que não tenho agenda. Pode haver pessoas com tão pouca agenda quanto eu, mas não há ninguém que tenha menos agenda política do que eu; não tenho nenhuma intenção política, não quero nenhum papel, não quero nenhum cargo. Não quero que ganhe A, B ou C, não estou enfeudado a nenhuma estratégia ideológica ou política e, portanto, sou completamente independente. E a pergunta é boa: a análise política fez-me assim ou eu era assim e por isso é que fui para a análise política? Como tudo na vida, é interativo, as coisas aceleram-se uma à outra.

Nesta semana, dizia que o cidadão foi submetido ao analista, porque a conclusão a que chega o analista é contrária ao desejo do cidadão.

É muito engraçado. Sabe que recebi uma carta de uma pessoa, que dizia: «O senhor não tem vergonha de não defender que o Rio deve ganhar ao Costa?», e escrevi que não tinha feito o comentário a pensar no senhor, mas é exatamente o que estou a pensar. Porque temos um problema em Portugal: as pessoas desejam uma coisa e, portanto, acham que o comentário político deve ser para ajudar a que essa coisa aconteça. E se alguém diz que uma coisa acontece, muita gente pensa que o digo porque quero que essa coisa aconteça. Tenho duas naturezas – há um bocadinho de esquizofrenia em mim, há que dizê-lo -, há coisas que quero e há outras que concluo da análise da realidade. E acho que é um erro – já saindo da ótica do comentador – que definamos a nossa estratégia pessoal por aquilo que queremos, sem nos perguntarmos e pode?, pode acontecer, é viável?



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